“INFELIZ A NAÇÃO QUE PRECISA DE HERÓIS”

O cenário político do Brasil, hoje, é a antessala do horror, flerta com o desastre. Por Murilo Bueno

Por Murilo Bueno 11/05/2017 - 13:18 hs

É impressionante como nós, brasileiros, temos essa necessidade de criarmos heróis, alguém que surja para encher os nossos corações de esperança, amenizar nossas angústias, solucionar nossos problemas.

Parafraseando o dramaturgo, poeta e teatrólogo Bertolt Brecht, “Infeliz a nação que precisa de heróis”.

Como se não bastasse, o contexto político atual me parece um terreno bastante fértil para o surgimento de um “salvador da pátria”. Eis o perigo.

As delações da operação lava-jato implodiram e, talvez, tenham dizimado quase toda a elite da classe política nacional. Com o fim do consórcio PT-PMDB e figurões como Serra, Aécio e Alckmin tornando-se verdadeiros zumbis, mortos-vivos no cenário político, abre-se espaço para a criação de um “Messias”. Quem seria o herói da vez?

Seguir por este caminho, ou seja, eleger um salvador, que venha a simbolizar aquilo que está acima do bem e do mal, um “caçador de corruptos”, é uma grande armadilha. O culto à personalidade é um passo perigoso em direção a mudanças das regras do jogo democrático, sobretudo em um país que carrega um passado cinza, manchado por anos de ditadura militar.

A ideia de uma pessoa como a encarnação da vontade popular (populismo), a crença de que o fim da corrupção e solução dos problemas virá pelas mãos de um salvador, historicamente tende a provocar um retrocesso democrático ou descambar para o autoritarismo declarado.

O cenário político do Brasil, hoje, é a antessala do horror, flerta com o desastre. Surgem como prováveis candidatos a “herói” os nomes de Lula, Bolsonaro, João Dória, entre outros.

Particularmente respeito a todos os entusiastas (que não são poucos) dos nomes acima citados. No entanto, embora admita que tenham lá suas virtudes (uns mais, outros menos.........outros muito menos), ao contrário do que se pode imaginar, nenhum deles, a meu ver, tem um “curriculum vitae” que atenda as exigências para o posto de herói, semideus, divindade ou algo do gênero.

Ao que tudo indica, por exemplo, Lula foi peça chave do maior escândalo de corrupção da história desse país; Jair Messias Bolsonaro é um “pop star” do extremismo político e, por fim, João Dória (o “menino malufinho”), ainda que no seu melhor estilo “Village People”, é político, sim, mas ainda neófito, por enquanto se mostra muito mais marqueteiro do que gestor público.

Pouco importa. Política precisa de lideranças, não de um MESSIAS. É preciso muito mais do que um nome para reformar um sistema político viciado e apodrecido. Não precisamos de um herói, precisamos tirar o ódio do discurso e debater, colocar em prática o exercício democrático da “participação”. Enquanto os bons seguirem se omitindo, os maus continuarão prevalecendo na política.

O já surrado discurso do “nós” contra “eles”, privilegia o surgimento desses “ídolos” momentâneos. Ocorre que essa situação não se justifica no Brasil. Essa dicotomia (coxinhas ou esquerdopatas) é muito pobre. Corrupção e sacanagem nesse país não é privilégio de lado, raça, cor ou credo. O “House of Cards” tupiniquim é à vera, sem ficção, cortes ou edição.