Cicatrizes da tristeza: o que leva uma pessoa a automutilação?

Reportagem trata do assunto da autolesão; leia.

Por Redação 10/05/2018 - 07:46 hs

Esta edição do Caminhos da Reportagem aborda a automutilação, que acontece quando alguém agride/fere o próprio corpo sem intenção estética ou suicida.  Apesar da ausência de dados específicos sobre o problema, profissionais da área de saúde afirmam que a prática tem aumentado no Brasil, principalmente entre os adolescentes.

O psiquiatra da infância e da adolescência André de Mattos explica que muitas vezes a autolesão é vista como uma forma da qual os adolescentes usam para chamar atenção ou para manipular alguém. Mas, segundo ele, “a autolesão mostra claramente que a pessoa está num quadro muito frágil e um sofrimento psíquico muito intenso”. 

Nossa equipe conversou com adolescentes e jovens que se automutilam ou já se automutilaram. Eles contam suas histórias de vida e o que os motivou a provocar ferimentos na própria pele. A maioria relata episódios de bullying, problemas familiares, tristeza profunda e solidão. Para muitos, os cortes na pele significam tentativas de aliviar o sofrimento.

“Minha família vivia discutindo uma com a outra. Aí eu achava que se eu me cortasse eu poderia dar mais atenção à dor [do ferimento] do que à outra dor da minha cabeça. Aí eu achava que aquilo podia ser bom pra mim, naquele momento”, conta uma das alunas entrevistadas durante a visita da reportagem a uma escola pública de Recife (PE). 

O professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco Hugo Monteiro fala sobre a importância do diálogo entre escola e família. “Você tem uma faixa etária de idades que tem tido, digamos assim, uma prevalência maior, que é dos 13 aos 16 anos. Você tem uma predominância maior com meninas. E você pode perceber que se a escola não começar um diálogo urgente com a família esse problema vai ainda quintuplicar. E outra coisa: a escola continua não escutando as crianças e os adolescentes. Como não escuta, não sabe o que está acontecendo com eles, cria estigmas, cria padrões, cria preconceitos e termina afastando as crianças, os adolescentes, as adolescentes de um possível movimento de acolhimento”.

No caso de Ivan Fialho, foi por meio da escola que ele descobriu que a filha se automutilava – um professor percebeu cortes nos braços da adolescente de 12 anos. “Eu fiquei um pouco assustado e nós começamos a procurar ajuda de terapeutas pra entender o que estava acontecendo”, conta Ivan. 

Atualmente Fernanda Nathany tem 21 anos, estuda psicologia e continua em tratamento. Nas redes sociais, ela conta sua experiência e abre espaço para que outras pessoas se sintam à vontade para falar sobre automutilação. “A gente é um grupo de mútua ajuda e hoje em dia está sendo um grupo muito importante para mim, está sendo um grupo muito importante para muitas pessoas e é um lugar na internet onde você tem mais liberdade para falar as coisas”, diz. 

O Caminhos da Reportagem mostra também como os pais encaram o comportamento dos filhos: o desconhecimento da prática de automutilação, a descoberta, as formas de lidar com o problema e a busca por ajuda especializada.

Diante de tudo o que vivenciou com Fernanda, Ivan acredita que a melhor forma de cuidar da saúde dos filhos é estar atento aos comportamentos deles. “A gente às vezes tem uma vida muito corrida, quer fazer mil coisas ao mesmo tempo e, às vezes, não presta atenção neles. Antes dos nossos filhos cometerem qualquer coisa, eles vão dando sinais, vão demonstrando pra gente, a gente só não percebe”.